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CARMEN - cap - 13
Logo após Champirra sair do local, entrou de repente, pela porta principal, Carmen, vindo da oficina onde Hélio trabalhava trazendo nas mãos um prato de louça. Ela sacudiu o prato na bacia onde também lavou as mãos. Ajeitando-se toda, conversou duas palavras com a novata Branca e foi até onde estava Bebel, a dona do bar-café, e alí se sentou e teceu mais conversa com a mulher. Disse-lhe que tinha ido à oficina de Hélio, onde o homem estava trabalhando. Levou-lhe um prato de picado e uma garrafa de cerveja, pois o rapaz não tinha saído para almoçar. Contou também algo que ela temia acontecer, pois não queria levar culpa de nada. Pelo que disse, Hélio estava deixando a sua casa porque não aguentava mais viver com sua mulher de nome Helena. Ao dizer tal coisa ela se estremeceu como se estivesse sentindo medo ou um imenso frio. Tal assunto, Carmen ficou sabendo na hora em que foi deixar o picado. --- Esse assunto de marido e mulher não se mete a mão. - argumentou Bebel. --- Não é isso, mulher. É que ele me pediu para "viver" com ele. - comentou Carmen. --- Assim é ruim. Hoje você está num bereu. Depois vai ter sua própria casa. E aí? - perguntou Bebel, olhando a mulher. --- Pois é. O que é que eu faço mulher? - perguntou aflita Carmen. --- Sei lá! - disse Bebel. A mulher de apenas 20 anos estava mesmo chocada. Um vez desfeito o casamento de Hélio, ele estaria folgado para qualquer outra mulher. Mas, não era bem assim que se pensava. A questão é que ele perguntou a Carmen se topava "viver" com ele, pois o seu casamento fora por água a baixo. De há muito, o homem brigava constantemente com Helena, sua mulher. Depois do incidente do último domingo, ela então fez amplo desabafo contra o seu casamento e disse ser preferível acabar com tudo. O certo é que Hélio ficou a pensar e na noite da segunda-feira voltou a dormir na oficina. Nada mais ele comentou. De modo que não voltou mais a sua casa desde aquele domingo. Na quarta-feira, ele já estava com as suas roupas tanto sujas embora não ligasse. Ouviu de um rapaz que trabalhava em outra oficina que, na segunda-feira, a mulher Helena havia saído de casa, ao que parece, de vez. Ele ouviu tudo isso enquanto trabalhava. O outro mecânico era Otaviano, morador em uma rua bem próxima a de Hélio. Otaviano era conhecido também por Tavinho.
Escrito por aldericoalvares às 11:31:24 AM
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CARMEN - cap - 12
Três dias após o crime de morte, mais parecendo um "suicídio" ou morte casual, apareceu no Café Tatajuba o elemento Manoel Champirra que lutou com o bêbado e nada ele falou. Apareceu, simplesmente. Era à tarde e Bebel perguntou como tinha passado o caso. Champirra disse apenas que se apresentou à Polícia e contou a sua versão. De um modo ou de outro, ele foi solto porque já passara o tempo de ser preso. E, afinal, o bêbado foi ele próprio quem desfechou o tiro em seu peito. Desse modo, Champirra teria que responder processo em liberdade. Como não tinha antecedentes criminais, ele foi mandado embora enquanto o processo corria por algum tempo. Passado algum tempo em silêncio, cabeça abaixada, riscando o chão com o pé, findou por perguntar como estava passando a garçonete. Bebel lhe disse que ela estava bem e que outra moça estava no Café fazendo o serviço da outra. E apontou: --- Essa aí. Branca. O nome dela. Branca. - disse Bebel. --- Bom. E ela está aonde? - perguntou Champirra. --- No quarto. Lá no galpão. - respondeu Bebel fazendo um gesto onde a garçonete estava àquela hora. --- Vou lá. Ela pode receber? - perguntou Champirra. --- Pode. Foi só um raspão. A bala não pegou mesmo. Ela pode. - respondeu Bebel. --- Que porras. E o cara morreu. Besteira danada. - disse Champirra ao sair. --- Pois é. Ele já era procurado. Assis foi quem disse. - respondeu Bebel.
Escrito por aldericoalvares às 12:21:30 PM
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CARMEN - cap - 11
Por fim, saiu, a procura de um carro que estava parado em frente à oficina. Era o carro de Joca que, nesse tempo vinha como se estivesse sido rebocado, com os braços gordos sacolejando para diante e para trás, bucho grande, porte pequeno, suando aos píncaros. Ao ver Hélio na carreira desenfreada, cruzando entre ele, Joca perguntou o que tinha havido. Então, Hélio pediu a chave do carro e Joca nada respondeu fazendo um sinal que estava lá. Com isso, Hélio entendeu que a chave estava do quadro do veículo. A mulher de Hélio estava parada observando a confusão que havia se formado no Café Tatajuba. Alarmada, então, se dirigiu a Hélio que chegava apressado para pegar o carro. --- Diz "perjura" por que não fosse dormir em casa? Que está havendo alí, heim? - falou Helena tudo a um só tempo. --- Vai-te. ... - parou Hélio no que teria mandado a sua mulher. Em seguida Hélio deu partida no cambão, fez a volta e rumou para o Café Tatajuba com o fim de colocar a garçonete dentro do veículo e levá-la ao Pronto Socorro. Um pequeno grupo de pessoas se juntava com Damiana nos braços, essa meio desfalecida, cabeça troncha para um lado, uma tipóia enrolada em seu braço ferido, saia caída, coxas de fora, nada disso importando. Segurando por um dos braços, o esquerdo, Carmen levantou a mulher para colocá-la na traseira do carro junto com Bebel e outras pessoas. Depois de acomodada e bem postada, a bela moça de 20 anos, continuando desfalecida seguiu viagem enquanto Joca reclamava por que o cambão pertencia a ele e por isso precisava ir com a gente que estava na carroceria do carro. Não se ouviu o que Joca falou e o cambão partiu em disparada, guiado por Hélio, enquanto a luta continuava no meio da rua até o seu final com um tiro de morte.
Escrito por aldericoalvares às 10:09:07 AM
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CARMEN - cap - 10
No bar-café Tatajuba, cedo do dia, por volta das 8 horas, um bêbado chegou armado com sua arma de fogo, um revólver e procurou vislumbrar a garçonete Damiana, a moça que na noite anterior sacudiu uma lapada de cana na sua cara e por isso houve contenda e ele sendo dominado e preso pelo agente Assis. Destacando a moça, o bêbado, que havia sido solto as primeiras horas da manhã, não contou conversa: foi à desforra com a garçonete. Chegando ao café, desfechou um tiro contra a garçonete que estava em uma sala preparando o café de um freguês naquele instante. O tiro acertou em cheio no alvo. Ao sentir-se atingida pelo disparo da arma, Damiana caiu ao solo no salão do café esvaindo-se em sangue. Nesse momento, o rapaz que era para ser atendido pegou o bêbado e caiu com ele no chão. A arma ainda estava segura na mão do bêbado. Dois outros fregueses também acudiram o rapaz que se debatia com o bêbado. O rapaz era Manoel Champirra. Enquanto Champirra saía agarrado com o bêbado, os outros dois que também pediram café, tentavam soltar Champirra do bêbado. Foi uma luta feroz como se fossem dois tigres. Em um dado momento, ouviu-se um segundo disparo: com sua própria arma o bêbado acionou o gatilho e disparou sem querer contra o seu próprio peito. Um tiro certo para uma morte certa. A manhã acordara a Ribeira por conta dos disparos. Enquanto havia a briga entre Champirra e o bêbado, seguia na carreira infernal o homem Hélio em direção ao café Tatajuba, com a mente um tanto embaralhada pela beberragem da noite passada, boca seca, sem cuspe, suando por todo o corpo, com as carnes tremendo, efeito da bebida, passando entre um e outro até chegar afinal à porta de entrada do boteco e ver de imediato a figura de Carmen, o que lhe trouxe uma alegre calma. Mesmo assim, ele notou que Carmen, Bebel e um homem traziam nos braços a segunda garçonete Damiana, ferida no antebraço por um disparo de uma arma de fogo. O alarme era geral com o povo querendo ver Damiana e a briga a um só tempo. Juntou-se uma verdadeira multidão no Café Tatajuba àquela hora da manhã, num dia de domingo, dia fraco de movimento, pois a freguesia era diminuta. Por seu lado, Hélio procurou saber do estado da garçonete e como tinha acontecido o fato. Coisa normal de perguntar. Por seu turno Carmen disse o que tinha visto e que naquele instante tentava socorrer a amiga. Ela, Bebel e o homem. Outros homens e mulheres se aglutinavam dentro do recinto dando, cada um, o seu parecer provocando um alarido tremendo com todo aquele incidente. Por fim Hélio falou: --- O hospital! O hospital! Levar para o hospital!!! - falou de forma enérgica Hélio.
Escrito por aldericoalvares às 4:13:01 PM
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CARMEN - cap - 9
Na manhã seguinte, por volta das 8 horas, alguém bateu na porta da oficina na Rua Cosmópolis. Como não houve resposta, a pessoa continuou a bater. E bater com mais força. O silêncio era total. Mas esse alguém teimava em bater bem mais forte ainda. No interior da oficina estava Hélio dormindo a sono solto. Podia acabar o mundo que ele não acordaria. O tempo fez silêncio. No bar da Tatajuba o movimento era grande desde as primeiras horas da manhã. Eram mulheres da vida livre, bêbados irrequietos, pessoal que frequentava o dia inteiro as tabernas do lugar. Um mundo de gente. Todos queriam ser o primeiro.. Do lado de dentro do bar estavam Bebel, Damiana e Carmen a atender aos frequentadores de hábito. Era um alarido tremendo desse pessoal. Alguns ainda de ressaca, reclamando da sorte. Na oficina, tinha mais gente naquele momento. Ouvia-se conversas de pessoas. Mesmo assim, Hélio não acordava. Em um dado momento, alguém colocou a chave na fechadura da porta estreita. Era Joca, o moço, quem abria naquela hora a oficina. Ele entrou e fez sinal para a outra pessoa que esperasse, pois veria se Hélio estava dormindo alí. Tão logo entrou, encontrou o mecânico dormindo a sono solto em cima de um banco trazeiro de automóvel. --- Hélio!Hélio!Hélio! Acorda! Tem gente lá fora ti chamando. Acorda!!! - dizia Joca. Hélio não acordou ou fez de conta que ainda estava a dormir, pois a voz de sua mulher lhe inquietava sobremaneira e seria a última pessoa a quem ele queria ouvir naquela manhã de domingo. Por isso, ele fez de conta que não ouvira Joca a chamar. Assim era bem melhor. Contudo, a mulher não se deu por satisfeita e com um pouco mais chegou até ele gritando aos berros: --- Acorda safado! Pensa que tu me enganas? HEIM? Acorda! Safado! Cachorro! Miserento! Por que não fostes dormir em casa? HEIM? Cachorro! - rallhava Helena com toda a fúria que lhe cabia. Com o escuro que fazia na oficina, Hélio também fazia de conta que mais dormia, deixando a mulher falar mais e mais, pois seria melhor assim do jeito que estava. A porta principal da oficina continuava fechada. Era uma porta de flandres que abria de baixo para cima, sanfonada, se enrolando no final. A porta era feita em dois seguimentos e tinha uma separação no meio por onde deslizava até chegar a seu final quando era aberta de uma só vez. Naquela ocasião, somente a porta estreita de madeira da qual ele tinha a chave, como Joca, era a que estava aberta. Por aquela porta toda suja de graxa de auto quase não entrava luminosidade alguma. Aproveitando o ensejo, Hélio fez de conta de que continuava a dormir a sono solto não levando em conta a tagarelice de sua mulher. Foi nesse instante que se ouviu um estampido de arma de fogo. Sem querer esperar saber mais de conversa, Hélio se levantou às pressas e saiu correndo em direção do bar da Tatajuba onde era servido o café. Provavelmente o disparo tinha vindo daquele local. Ele passou por a sua mulher correndo feito uma bala e Joca também foi para fora da oficina.
Escrito por aldericoalvares às 5:16:21 PM
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CARMEN - cap - 8
Na peixada, na Rua João Felipe, o homem pediu o cardápio e uma cerveja gelada, do tipo em garrafa. O garçon perguntou se eles queriam algo mais e Hélio olhou para Carmen como se dirigindo a pergunta a ela. A dama disse: --- Não. Está bom assim! - respondeu a dama. --- Você não quer cigarro? - perguntou Hélio. --- Parei! - disse a dama com um sorriso nos lábios. --- Então, tá. Só isso, garçom. - disse Hélio ao garçom. O homem saiu apressado, pois as outras mesas precisavam ser também atendidas. No restaurante tinha quatro garçons. Coisa pouca para um restaurante. Não era um restaurante de primeira linha. Contudo não deixava de ser um ponto de maior atração, aquele alí. Enquanto o garçom despachava o pedido que lhe fora encomendado, Hélio ficou a cismar Carmen a sua frente, admirando o vestido que ela trajava naquela noite. Decote aberto, uma flor na lapela, cor de vinho a roupa inteira, cintura armada. Tudo que era de belo naquela veste que a cada passo punha o rapaz enciumado com um alguém que passava e admirava igualmente a nova e esbelta mulher, linda e atraente. E então a moça não tirava os olhos de seu amante. pois, naquele restaurante só tinha mulheres amantes de seus homens a fazer charme para as suas rivais. Não havia briga naquele recinto. Não raro, na rua, um entrevero entre dois ébrios. A rua era escura, com suas lâmpadas queimadas no decorrer de seus postes; lama podre vinda de um mangue existente nas imediações; ônibos passavam pisando na lama existente e sujando as paredes paupérrimas das casas, muitas das quais habitadas por gente simples, mecânicos, estivadores, pescadores, empregados do Cais do Porto. Aquele era um bairro de gente pobre mesmo. Os restaurantes existiam porque alí havia o descarrego de peixes o dia todo de embarcações vindas do alto mar. O dinheiro corria somente no final de semana, soldo do trabalho dos que auferiam algum proveito do salário. O casal ficou alí por um longo período de tempo, consumindo peixe, pirão, saladas de folha de alface, tomates, cebolas em meio a goles de cerveja. O tempo passava como um relâmpago. Era depois de meia-noite quando os dois saíram com Hélio pagando a conta ao garçom. A noite era quente e os sentidos do rapaz estavam meio entorpecidos pelo sono, bebida e o que fizera com sua dama. Mesmo assim, os dois caminharam por entre a rua e becos até que apareceu um taxi. Sem mais conversa o rapaz fez aceno para que parasse. Os dois embarcaram no carro e seguiram direto para o bar da Tatajuba, àquela hora da madrugada já totalmente fechada, pois no dia que se aproximava tinha que abrir e as damas fazerem o café da manhã para os que passaram a noite na bebida. Um tanto ébrio Hélio rumou para a oficina após deixar Carmen em seu local de onde a tirou. O carro em que eles chegaram, fez a volta de retornou a seu ponto de origem. Na oficina, Hélio procurou um assento de um veículo e, por seu turno, adormeceu. No dia seguinte, um domingo que quase todos guardavam, ele tinha trabalho a fazer.
Escrito por aldericoalvares às 11:11:49 AM
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CARMEN -cap - 7
Então, Hélio puxou a mulher para si e lhe encheu de beijos. Não tinha mais disposição para fazer mais coisa alguma, pois até aquele momento o que ele fez lhe deixou fatigado. Afinal, Hélio não queria saber detalhes sobre a vida passada de Carmen, pois já estava acostumado com as reclamações de todas as mulheres, inclusive a sua. Ele se lembrava de Helena quando estava sozinho em sua casa. A sua mulher era de um corpo esguio e das reclamações que ouvia parecia que o mundo estava prestes a se acabar. Certa ocasião, de tanto ouvir tais reclamações, ele se levantou do sofá e foi até onde estava a mulher, Helena, e puxou-a pelo braço, entrou no quarto, tirou a sua roupa, levantou a roupa que Helena vestia, e fez amor com ela até o ponto final. Depois se levantou e saiu ouvindo os desaforos por ela desferidos: --- "BRUTO!!!" - disse-lhe a sua esposa. E ele saiu de casa, batendo a porta em seguida, sem dar atenção as reclamações da mulher. Apenas viu que a mulher também chorava naquela ocasião. Depois daquele instante, Hélio se levantou da cama e foi tomar banho. A dama ficou só, deitada, a mirar o teto do sobrado onde eles estavam naquela noite de eretismo. Na verdade, ela estava se lembrando de seus momentos passados, de quando ainda mocinha, levou uma surra do seu pai por causa da gravidez. Já, tempos passados, ela ainda lamentava ter se sujado com o namorado no meio do mato onde talvez tivesse cobras. E nesses aforismos, de um momento a dama estremeceu. O refluir da água do banheiro que ela ouvia escorrer onde o rapaz tomava banho acalmou um pouco os pensamentos da dama. Em sua mente, via o correr da água pelo ralo como se fosse uma vida de um ser ao nascer em plena extinção. Lembrava-se da criança que nascera há alguns anos e que veio já sem vida. A água escorrendo parecia a vida daquele bebê.
Escrito por aldericoalvares às 10:27:27 AM
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CARMEN- cap - 6
Depois de toda aquela cena passada onde o ébrio estava trancafiado na cadeia e Damiana já voltara ao bar, Hélio e Carmen estavam largados no quarto cumprindo o seu maior amor do mundo contemplando o panorama visto sob a luz do abajur terno e confortante à meia luz na noite maviosa e cheia de encanto dos arrebatadores momentos de um adormecer fecundo. Momentos que lhes faziam recordar um rio, uma fonte, um vale em flor, a lua banhando dois corpos desnudos, inquietantes e belos. Era o momento para se dizer frases de amor entre dois carinhosos amantes no delírio de uma paixão. Palavras que lhes escapavam furtivas entre um doce abraço aconchegante do homem amado. Naquele rosto meigo de mulher podia se perceber um sorriso de criança sem contar os vivazes lírios em seus lisos e belos cabelos alongados. --- Se você não fosse casado. ... - foi o que falou Carmen. E calou. --- O que é que você quer dizer com isso? - perguntou Hélio. --- Nada, amor. Nada não. Besteira. - voltou a falar Carmen. Logo se percebeu os seus olhos molhados de lágrimas como uma menina que chora quando se pede para não fazer algo. Naquele instante, a mulher perdia o seu clamor de ardente dama por uma tácita questão de apenas mulher. Logo Hélio notou que a dama chorava e fez questão em consolá-la para evitar um derramar de pranto por uma longa noite. Afinal, a mulher jamais fora assim, capaz de chorar por algo que não valia à pena. Sabe Deus quanto foi que Hélio viu sentidos prantos de Carmen, isso porque ela era de uma personalidade marcante e por tal motivo, jamais chorava. Certa vez, um namorado que foi o seu primeiro namorado, não restam dúvidas, fez com Carmen a sua primeira chama de amor. Ela ficou tranquila. De qualquer forma sentiu remorso por tudo o que jorrava do seu corpo. Nunca soube explicar a razão que levou o namorado não mais a procurar. Um filho desse drama morreu logo ao nascer. Carmen, então,calou. Um rebenque levou do seu pai, por causa da gravidez, de certo modo indesejada, e fez com que Carmen se tornasse mais amarga, calada e de pouco riso. O pranto lhe brotou à face naquela hora de ingloriosa agonia. --- Você sabe que sou casado. Não sabe? - perguntou Hélio. --- Sei. Mas não é só isso. - respondeu Carmen ainda lacrimejando os olhos. Carmen estava sentada com as suas costas ligeiramente voltadas para Hélio que se espreguiçava todo como se estivesse a dormir até então. Nada incomodava ao rapaz. Nesse momento, foi que o choro da mulher o incomodou sobremaneira. --- Fica chorando e não diz nada? - inquiriu Hélio. --- Pois é. Questão minha. Lembranças. - respondeu Carmen. --- Lembranças? Que lembranças? - voltou a perguntar Hélio. --- Lembranças. Assuntos meus. - disse Carmen. --- Ah, sim. Já estava com medo. Mas o que tem isso a ver comigo? Meu casamento? - perguntou o homem. --- Nada, amor. Nada não. Besteira. - respondeu a mulher procurando sorrir e se virando para Hélio que estava de banda com a cabeça escorada com a mão esquerda, com o braço fazendo uma espécie de "L".
Escrito por aldericoalvares às 3:58:38 PM
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CARMEN - Cap 5
Em dado momento, a moça pegou o copo de cachaça e arremessou na cara do bêbado. Daí então foi um passo. O bêbado se sentiu agredido e tentou pular o balcão. Damiana se armou de uma tesourinha que colocou entre os dedos da mão e disse: --- VENHA!!! VENHA!!! VENHA!!! - disse a dama. --- Que é isso, Damiana? Pára com isso! - disse Carmen. Falou Carmen ao chegar às pressas até o local do incidente vendo Damiana armada com uma tesoura, pronta para se defender do bêbado que estava em cima do balcão disposto a saltar para dentro do bar. --- Esse porra!! Quem pensa que ela é? Venha!! Pra te enfiar essa tesoura, seu puto!!! - alarmava a mulher, vendo-se o sangue subir em seu rosto de tanta ira que ela estava. --- Essa puta quem é? Caralho! Vagabunda! Você se confia nessa tesoura? Pois olha o que eu tenho? - disse o homem sacando o revolver. Nesse momento, Hélio já estava próximo do bar e partiu para cima do bêbado, torcendo-lhe o pulso e fazendo cair de imediato a arma no chão enquanto com outro braço empurrava o bêbado para baixo. Em seguida, Hélio pulou o balcão e já estava agarrado com o bêbado quando Assis chegou vindo da rua, e viu a cena. Sem demora, Assis agarrou o bêbado e torceu-lhe a garganta, pondo-lhe sem defesa possível. O bêbado estrebuchava, sacudia uma ou outra perna para trás, gritava alto, aos berros, soltando impropérios contra a moça. Falava quase aos gritos, mesmo estando com sua garganta estrangulada. Os gritos do bêbado eram tão fortes que alarmou todo o pessoal das pensões adjacentes. E em pouco tempo, toda uma multidão estava lá vendo de perto a luta do bêbado que, depois de algum tempo, era levado por Assis, investigador da Polícia, para o distrito próximo na Rua das Trincheiras. Com Assis e o bêbado também seguia Hélio que era a testemunha ocular e mesmo o homem que desarmara o agressor. E pouco depois, chegaram as duas mulheres, Damiana e Carmen. As duas fecharam o bar, pois a dona, Bebel, estava fora, em algum lugar. Tão logo imobilizou o revoltoso, o policial Assis encostou um revólver que trazia consigo, nas costelas do insurreto e pediu que Hélio pusesse a arma do rebelde em sua cintura pois suas mãos estavam ocupadas com o segurar daquele celerado. A multidão que se formou acompanhou o facínora gritando e aplaudindo a ação do policial sem levar em conta a questão de Damiana, a principal causa de todo aquele tumulto.
Escrito por aldericoalvares às 11:25:03 AM
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CARMEN - cap 4
Na noite daquele sábado, quando o movimento cessou, Carmen se preparou, pondo-se na mais elegante forma, pois teria que "sair" na companhia de Hélio, o mecânico que, naquele sábado, largou cedo do trabalho. Antes de ir buscar Camen, ele teve que passar em sua casa, pois pensava primeiro na despensa do lar. Depois, o caminho era o seu. Feito isso, Hélio fez o que esperava. A renda da semana foi satisfatória, mesmo ele tendo gasto com a taberna, no café da Tatajuba, coisa que ele também aderia como os demais fregueses, damas e moços, todos enfim. Quando Hélio chegou à taberna que se acostumou de chamá-la bar da Tatajuba, entrou por uma das duas portas da Rua Cosmópolis que dava para o beco e, de imediato, com sua voz tranquila, pediu à Carmen que lhe pusesse uma cerveja. Coisa normal, por assim dizer. Em um dado momento, alguém bateu com força no balcão da taberna e gritou alto. --- CIGARRO!!! - voz de um desconhecido. Nesse momento, Hélio, que estava com a cabeça abaixada, fazendo um circulo com o copo, levantou o seu olhar para Carmen que estava chegando com a cerveja, indagou surpreso à dama. --- Quem é? - perguntou Hélio. --- Um bêbado! - respondeu Carmen. --- Vai lá. - disse Hélio. --- Damiana atende. - respondeu a jovem mulher. --- Bêbado. - comentou baixo o mecânico como desprevenido com tal ato e balançou a cabeça de leve, para a esquerda e para a direita. Então, a moça se sentou na cadeira em frente de Hélio, colocou as mãos no queixo, deixando os seus cabelos soltos caírem ao longo do corpo, alguma vez ajeitando o penteado e assim, ficou a olhar terna para o rapaz como se o mundo tivesse parado naquele momento onde somente existisse o seu amor de momento. Era um longo deleite aquele que a jovem desfrutava não querendo pensar em mais nada. Ela pensava apenas no jovem rapaz, do amor que faria com ele, levando para os confins do devaneio, da fantasia, da idealidade. Um frio lhe percorreu a espinha e a jovem tomou-se de um repentino torpor como se o rapaz lhe houvesse poupado em seus braços. Nesse instante, Carmen foi tomada de abalo por coisa que estava vindo da parte da frente do bar. Era o bêbado fazendo questão em chamar Damiana para sair.
Escrito por aldericoalvares às 2:56:41 PM
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CARMEN - cap 3
Depois de tudo, a calma voltou ao nomal. Mas, olhando bem, se via a cara do malencarado olhando enfezado para o seu devedor. Ainda assim, o café continuava no bar da Tatajuba. Enfim, as coisas se ajeitavam. Uns, procurando tomar o seu desjejum lá dentro do bar, onde a conversa era franca e muito alta. Outros, principalmente as damas, tomavam o seu desjejum no lado de fora, no balcão, onde punha a conversa a limpo. Passada a hora do café, lá para as dez, o movimento no dia de sábado, crescia com as garçonetes servindo a freguesia com pratinhos de picado, cerveja e cachaça. Lá para as tantas do dia, já havia bêbado caído pelas mesas do bar. Tal negócio durava até as 8 horas da noite quando as damas procuravam tomar banho e "sair" com algum freguês que havia combinado. O que mais se reclamava era quando o Coronel Mardoqueu lá chegava sempre às quartas-feiras e o bar fechava para ele desde 9 da manhã até a hora que ele saísse, 3 horas, mais ou menos. Mesmo assim, isso náo se dava nem toda a semana. Era de quando em quando. O Coronel Mardoqueu queria "batizar" o charuto nas pernas das damas e até mais, se elas suportassem. As damas "batizavam" os charutos passando uma caixa inteira de 50 charutos no seu sexo. Então, o homem se mostrava "satisfeito". E caía na gargalhada. Essa "festa" no bar da Ribeira era em um ambiente trancado onde ninguém de fora podia entrar. O que se ouvia eram as risadas homéricas do homem.
Escrito por aldericoalvares às 9:29:05 AM
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CARMEN - cap 2
No tempo do velho Joca não havia boteco naquele beco da Ribeira. Esse surgiu tempos depois quando o jovem Joca já era o responsável pela oficina. Por isso, não se sabe ao certo de quando foi a sujeira nas paredes do banheiro que também era o aparelho sanitário da oficina. De um modo ou de outro, aquele banheiro parece que foi bem feito, pois até azulejo em suas paredes ele tinha. Isso denotava que aquela oficina, um dia, foi algo decente. No dia de sábado era o de maior movimento em relação ao restante da semana. Logo cedo da manhã tinha o chamado café da Tatajuba. Por que colocaram esse nome, não se sabe. Talvez por causa de um pé de Tatajuba existente em uma propriedade, vizinha ao bordel ou quase bordel, pois afinal alí as damas saíam com quem tivesse dinheiro para pagar a conta do bereu ou "recurso". No bar, não se podia fazer amor, pois o local era estreito demais e sua dona não queria saber de mais arrumação que aquela. O café da Tatajuba era bem cedo do dia. As garçonetes já podiam estar prontas para servir cuscuz, bolo, macaxeira, leite, pão e o próprio café além de outras iguarias. Quando Carmen "saía" para outro local da Ribeira tinha que deixar dito que voltava na hora do Tatajuba. E a dona do bar dizia que sim e podia ir. --- Às cinco, viu! - dizia Bebel, a dona do bar. --- Certo! - respondia Carmen. Para a freguesia, o Tatajuba era o melhor café da região do bairro. Outro, não era igual. Por lá corriam as damas dos salões que ficavam nas proximidades, mecânicos, trabalhadores de armazéns, estivadores, aprendiz de alfaiate e um sem número a mais. Cada qual que quisesse ser atendido primeiro. Que fossem mulheres ou homens. O gozado de tudo era a conversa solta naquele ambiente às primeiras horas do dia. Sempre caía em futebol, cana e preços exorbitantes do material com que os homens trabalhavam. Já as damas, a conversa girava em torno da noite, os bêbados que elas lograram; os marreteiros que rondavam as mesas de um bar que não era aquele e um monte de bobagem. Alguém vinha querendo receber o dinheiro que ficara no débito de uns dias passados. E a resposta, sem mais conversa, saía de imediato: --- Mais tarde, cara! Isso é hora? Te pago. - respondia o devedor. --- Tu vens com essa conversa faz tempo, bicho! - gritava o cobrador. --- Vai querer brigar, vai? - respondia o devedor. --- Calma! Calma! Tudo se acerta. - entrava um que nada tinha a ver com a dívida.
Escrito por aldericoalvares às 3:14:45 PM
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CARMEN - por Alderico Leandro - cap I
Naquela noite, o bar estava fervilando de fregueses. Alguns deles já estavam prá lá de bêbado. Outros estavam começando a beber. As garçonetes não paravam de atender aos pobres e mais ou menos, pois naquele recinto, rico não ía. Gargalhadas homéricas se ouviam em todos os cantos da saleta, pois o bar era feito de madeira e sua extensão da parede para a porta de saída não tinha mais de três metros, se fosse tanto assim. Entre as garçonetes que serviam aos fregueses habituais estava uma: a mais solicitada dos beberrões. Seu nome era Carmen. De que nenhuma pessoa sabia, pois a moça não dizia o seu nome completo a ninguém. Então, dessa forma, sem mais preocupação todos lhe chamavam apenas de Carmen. A moça tinha cerca de 20 anos e quase não sorria para a freguesia. Quando muito fazia um soar que lhe permitia ouvir como se fosse um som gutural. E depois, ela dava um sorriso leve que se percebia apenas por sua boca completamente fechada. Cabelo negro e longo, a jovem tinha um amante, rapaz casado que, mesmo assim, mantinha uma relação com Carmen. Ele era mecânico de automóveis e, quase sempre, estava pego no trabalho até as 10 horas da noite, dependendo do serviço. Uma vez ou outra Carmen chegava até a oficina para ver o que Hélio estava a fazer. Na oficina, ela aproveitava para tomar banho, pois na taberna não tinha banheiro. Quem trabalhava na oficina, olhava de soslaio para Carmen, com medo de ser visto por Hélio ou por a própria jovem. E ninguem estava querendo levar uma sova dos dois. Mesmo assim, escondido entre as coisas velhas dos carros que alí ficavam, tinha quem fosse até bem perto do banheiro dar uma olhadela em Carmen, nua, tomando banho. Quem ia se masturbava como nunca ao ver a mulher, mesmo estando escontido por entre os flandres de capô, portas e outras coberturas de carros. Mesmo assim, tudo isso era feito em surdina para que outro não notasse, apesar de terem muitos a fazer a mesma façanha. Vez por outra, Carmen levava outra mulher do bar, quando as duas tomavam banho inteiramente despidas. Um rapaz que ajudava no reparo dos carros era o mais afoito, nessas horas. É tanto que Joca, dono da oficina, procurava pelo rapaz em dado momento, e não o encontrava. --- Onde foi Amarelo? - perguntava Joca de modo aleatório. E ninguem respondia coisa certa, pois Amarelo estava escondido por entre as sobras de carro. olhando as duas mocinhas, pois Carmen tinha 20 anos iguais à idade de Damiana, a moça que de vez em quando ia com ela. Nem por isso, as damas se importavam e na hora do banho, tendo ou não tendo ninguém escondido atrás dos zincos, elas estavam lá, sem se incomodar com nada nesse mundo. O banheiro era imundo, cheio de graxa nas paredes dos veículos que um dia qualquer esteve alí para o conserto. A oficina pertencera ao velho Joca que um dia morrera por causa comum. E foi assim quem assumiu a tarefa de conduzir os trabalhos foi o jovem Joca. Era uma verdadeira troca de pai para filho.
Escrito por aldericoalvares às 12:32:48 PM
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